Lost e a cultura da convergência

Lost é uma série americana de 6 temporadas muito bem sucedidas criada por J.J. Abrams, Jeffrey Lieber e Damon Lindelof. Ela introduziu alguns elementos que modificaram a forma com que o público via uma série. Todos seus fatores de sucesso podem ser explicados pela chamada “Cultura da Convergência”, título do livro de Henry Jenkins, que analisa as transformações culturais que a convergência de mídias é capaz de criar. Em Lost, tal convergência acabou criando um fenômeno que se estendeu por toda a internet e, junto disso, a polêmica do direito de criação.

No universo das grandes séries, o sucesso e a audiência são dois fatores muito considerados para a renovação ou não renovação da série pelos canais. Muitas vezes, logo depois da exibição do piloto, estatísticas são analisadas e os programas que não adquiriram um bom percentual de audiência e aprovação já correm o risco de serem cancelados. Com o episódio piloto de Lost e suas configurações de roteiro, o sucesso do seriado já estava praticamente garantido.

O episódio piloto apresentava os principais personagens – Jack, Hurley, Charlie, Claire, Kate, entre outros – perdidos em uma ilha após um desastre de avião. Ela se inicia mais focada em Jack, médico, preocupado em ajudar as vítimas do vôo. Junto dos personagens, o primeiro episódio já apresenta algumas peculiaridades misteriosas e bizarras que a ilha encerra. Mas não é só essa narrativa contada na série: ela também inovou ao contar paralelamente ao presente a história do passado de cada um dos sobreviventes por meio de flashbacks e – no caso das temporadas mais avançadas – flashfowards, muitas vezes inseridos em pontos estratégicos da narrativa, como para desmascarar algum herói pelo seu passado não tão agradável.

Um dos fatores responsáveis pelo sucesso de Lost, dentre tantos (e as narrativas paralelas são um deles), é que o telespectador sabe tanto quanto alguns personagens. Pelo menos no episódio piloto, as mesmas dúvidas deles são as de quem está assistindo, criando quase uma sensação de cumplicidade. Vem daí, talvez, a origem de tantos blogs, livros e sites criados para se desvendar os inúmeros mistérios apresentados pouco a pouco nos episódios.

Vale dizer, entretanto, que esse recurso de criar a dúvida também no espectador já foi sim explorado em outras séries, como em C.S.I., por exemplo. Entretanto, há duas diferenças que fazem com que a cumplicidade não seja aqui sentida cem por cento: uma, mais formal, tem relação com a estrutura da narrativa, uma vez que o mistério dos crimes de C.S.I. costumam ser individuais por episódio e encerram-se também por episódio; a outra diferença está no fato de que por mais que os especialistas não saibam quem matou quem e de que forma, eles têm um conhecimento prévio acerca dos materiais que coletam, da junção das descobertas, do que significam os resultados. Em Lost, nas primeiras temporadas, descobrimos que na verdade não sabemos absolutamente nada e que os personagens ali na tela sabem tanto quanto nós, pois ninguém nunca estivera ali antes (de forma geral…) e, portanto, não tem conhecimento prévio, não sabem qual passo tomar.

Dessa forma, Lost é bem trabalhado em cima de alguns conceitos descritos por Jason Mittel em seu texto “Lost in a great story”, facilmente indentificáveis logo nos primeiros episódios, e são eles: unidade de propósito, forensic fandom, complexidade de narrativa e estética da surpresa

Unidade de propósito se refere às informações dadas pelo episódio que ajudam a contar a história como um todo. É possível perceber que em Lost sua narrativa é contínua e cuidadosamente planejada, pois cada novo detalhe é uma dica lançada ao espectador para que ele também seja como um dos aventureiros da ilha cheia de mistérios. No primeiro episódio, por exemplo, descobre-se a existência de um transceiver que torna capaz pedir ajuda ao resgate, mas também que o avião estava fora de sua rota, ou seja, quem está a procura do avião, está procurando no lugar errado.

Junto com a unidade de propósito, pode-se citar a complexidade de narrativa e a estética da surpresa. Os três conceitos existem juntos, já que a complexidade de narrativa se refere ao modo com que a história é contada. Como Mittel diz em seu texto, “Lost exige atenção tanto na narrativa quanto no modo de contar a história”, ou seja, junto da complexidade da história estão as dicas dadas pela narrativa que irão criar uma expectativa e curiosidade por cada novo mistério, que podem ser resolvidos facilmente ou se tornarem cada vez mais confusos, surpreendentes e inesperados, fator por onde entra a estética da surpresa.

Estes três conceitos usados em Lost acabaram resultando num terceiro que depende, em parte, de seus fãs e espectadores e que dialoga com a cultura da convergência: o forensic fandom, que é como se fosse o resultado de todos eles. É um conceito que remete à participação dos espectadores nos mistérios da série, uma vez que são levados a procurar pistas nos episódios e fora deles (com a ajuda em parte dos produtores). Toda essa informação acaba sendo compartilhada com outros fãs, que publicam tudo na internet, por exemplo, embora já tenha casos de livros. Lost possui inúmeros sites sobre teorias que tentam desvendar os enigmas e até uma enciclopédia, a”Lostpedia“. Tudo isso que sai da esfera puramente televisional e migra para outras mídias, por onde se eternizam, é a cultura da convergência acontecendo.

Alguns sites que demonstram tudo isso:

LOSTPEDIA:

http://pt.lostpedia.wikia.com/wiki/Pagina_Principal

LostBrasil:

http://www.lostbrasil.com/portal.php

Ação com fãs de Lost:

http://blogcitario.blog.br/2010/02/acao-com-fas-revoltados-de-lost/

Dharma Day (evento criado pelos fãs):

http://pt.lostpedia.wikia.com/wiki/Dharma_Day

“Pout-porri” do que já criaram sobre Lost:

http://www.youtube.com/watch?v=BVw_S70yRcc

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