“Quarto 666” de Wim Wenders

por Lígia Wendler

Durante o Festival de Cannes de 1982, Wim Wenders resolveu questionar diversos cineastas sobre o futuro do cinema. Wenders os chamou, um a um a um quarto de hotel, onde encontraram apenas um gravador, uma câmera e uma televisão ligada. A proposta de Wim Wenders para o filme documental “Quarto 666” era de que cineastas de sucesso e de diversos países respondessem questões, falassem e, principalmente dessem o seu depoimento sobre o futuro e a suposta “morte” do cinema. Entre eles: Godard, Herzog, Antonioni e Spielberg.

O filme começa com algumas cenas do próprio festival seguidas de um plano de uma grande (e, provavelmente antiga) árvore, próxima ao festival. A árvore tem um significado muito importante, principalmente quando a ligamos a alguns dos depoimentos que falavam da tradição do cinema, dos filmes, que já estão feitos, ou seja, que já existe uma forma definida ou, que tudo já foi feito.

Godard inicia os depoimentos. É interessante notar como Wenders põe em questionamento a televisão e o cinema e coloca no quarto uma televisão ligada. Mais interessante ainda é notar como Wenders conseguiu traduzir cada cineasta apenas com um programa de televisão (que passa na televisão no momento de seu depoimento) e como em alguns depoimentos, ela causa uma distração no entrevistado. No caso de Godard, um jogo de tênis, que podemos associar a personalidade provocativa e misteriosa de Godard, onde ele parece ler as questões colocadas por Wenders, mas chega a um ponto onde nós espectadores não sabemos se ele lê as perguntas ou simplesmente fala a sua opinião sobre elas.

A entrevista de Godard serve não apenas para mostrar o que ele pensa sobre o tema, mas para explicar melhor para o espectador a proposta de Wenders. Godard pergunta a duração do rolo (que é de 10 minutos) e vemos a claquete sendo batida. Então Godard, ao invés de apenas responder a pergunta, a lê e ainda inicia seu discurso contando um pouco do surgimento do cinema e da televisão. Ele comenta o fato de o cinema ser muito bem aceito pelas massas e também da televisão ter crescido muito com a publicidade em que ela foi envolvida.

Uma questão importante colocada no documentário é se a televisão afeta ou afetou o cinema. Muitos cineastas não concordam com isso, pois afirmam que a televisão e cinema são coisas totalmente diferentes, tem linguagens diferentes. Apesar disso, outros pensam que o cinema começou a perder suas forças com a chegada da televisão, levantando a discussão se o cinema ainda vive.

Me chamou a atenção o que disse a cineasta Susan Siedelman: “O cinema começa a morrer quando se perde a paixão de se fazer um filme”. Infelizmente podemos ver essa paixão morrendo em alguns cineastas e, numa questão de que a maior parte dos filmes dependem para serem realizados: dinheiro. Alguns cineastas contaram no pequeno confessionário montado por Wenders que não assistem mais a filmes, que não vão mais ao cinema. Outro ainda se mostrou adaptado a forma atual de se fazer cinema: “Os livros estão nas estantes”, ou seja, tudo já está planejado e escrito para que o diretor comece o seu trabalho. Uma história já foi escrita e nesse planejamento prévio, o diretor provavelmente não poderá usar sua criatividade para inovar.

O depoimento de Spielberg também me chamou a atenção neste ponto. Ele não fala de fazer cinema. Ele fala apenas dos custos de um filme e de como as pessoas que estão fazendo filmes querem cada vez mais, lucrar com eles. Aí entra a questão levantada por Yilmaz Güney, sobre cinema artístico e cinema comercial e que está cada vez mais difícil fazer um cinema artístico, se dependemos cada vez mais de dinheiro para realizar um filme.

Wenders poderia muito bem ter feito pequenas entrevistas convencionais com seus entrevistados, mas preferiu os deixar neste quarto, para atingir o íntimo de cada um, sem que algum fator externo pudesse interromper ou atrapalhar os discursos dos entrevistados.  Além disso, Wenders conseguiu traduzir cada um deles, antes mesmo de estarem na sala. A televisão colocada logo atrás deles consegue, muitas vezes, traduzir em imagens como cada um deles irá reagir ou o que irá falar. Wenders conseguiu fazer um filme não apenas sobre questões importantes e (até hoje) atuais do cinema, mas um filme que fala sobre cada cineasta que participou.

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