Quarto 666

por Amaury Souza

Quarto 666, de 1982, é um filme que fala sobre uma questão ainda atual, e que aparentemente será levantada sempre que um novo meio de comunicação de massa fizer sucesso e for capaz de reproduzir a experiência cinematográfica fora das salas de cinema de forma satisfatória. A questão em pauta é até quando o cinema como conhecemos irá existir.

Para discutir a questão, Wim Wenders convida diversos diretores a dar depoimentos. Comentários às vezes complementares, às vezes opostos, revelam bastante sobre a personalidade dos convidados, seus contextos de trabalho e o que valorizam na realização cinematográfica.

Paul Morrissey, por exemplo, define o que julga artes mortas dando exemplos como romances, poesia e teatro, a partir daí dizendo que o cinema já naquela época estava morrendo, sofrendo do esgotamento como (disse ele) outras artes sofreram. Morrissey justifica dizendo que o que realmente importa nos filmes são os personagens, criticando a interferência autoral dos realizadores cinematográficos e apontando como na TV essa interferência é menor, permitindo que os personagens (reais ou não) ganhem maior destaque.

Outros diretores, apesar de pensarem a respeito do futuro do cinema, parecem bem mais otimistas em relação à questão, ou pelo menos não tão preocupados.  Susan Seidelman, por exemplo, realça apenas que cinema é arte e envolve paixão, é uma forma de refletir a vida, e que só quando se esvaziar disso ele morrerá. Na mesma linha argumenta Werner Herzog, que apesar de comentar questões mais técnicas como o espaço de exibição e a linguagem, realça que onde acontecer a vida, haverá cinema, e é isso que sobreviverá.

Mas de todos os depoimentos, dois que chamam a atenção são os de Steven Spielberg e Michelangelo Antonioni, em especial pela pertinência dos comentários em relação ao desenvolvimento da indústria cinematográfica a partir daquele ponto.

Spielberg é otimista em relação à produção cinematográfica continuar existindo, mas teme pela diversidade e pelos custos proibitivos de se fazer um filme. Mesmo que falando em milhões de dólares (a realidade de Spielberg em Hollywood), o diretor prevê como os orçamentos podem ser limitados, e como ainda assim os filmes deverão ser feitos de qualquer forma, o que reflete a realidade de países como o Brasil.  Ele finaliza expondo seu maior temor com uma crítica aos detentores do poder econômico em Hollywood por quererem sempre o filme mais rentável em detrimento da diversidade e da originalidade, buscando sempre um filme “ideal” para vender a todos, o que Spielberg julga impossível.

Antonioni, por fim, apesar de concordar que a existência do cinema tal qual existia na época estava ameaçada, não via nisso um grande mal, uma vez que com novos materiais de trabalho se podia experimentar, e inclusive ele tinha expectativas de materiais de qualidade superior para se fazer e guardar filmes. Ele disse também que os realizadores se preocupavam com o fim daquele cinema porque aprenderam a se expressar daquela forma e com aqueles materiais específicos, o que corria o risco de ficar antiquado, uma vez que não se sabia as necessidades de comunicação e entretenimento de novas gerações. Seu discurso enfatizou a necessidade de adaptação, apontando inclusive que os novos materiais poderiam alterar o pensamento do realizador sobre si mesmo. Além de tudo, Antonioni previu que os filmes seriam cada vez mais vistos dentro dos lares das pessoas, em alta qualidade (o que cada vez mais acontece hoje) e diz que no futuro a estrutura das salas de cinema não será mais necessária.

Dou destaque a estes dois últimos depoimentos por julgá-los mais maduros que a maioria, seus autores aceitam as mudanças e, especialmente Antonioni, se mostram prontos para lidar com o que quer que resulte delas. Algo que, no fim das contas, determina a sobrevivência do cinema.

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