Quarto 666, “documentário” de Wim Wenders

por Tais Godoi Faraco

Em 1982, Wim Wenders aproveitou que no Festival de Cannes estavam reunidos dezenas de cineastas e escolheu 16 deles para sentarem num quarto de hotel e dizerem suas opiniões acerca do futuro do cinema em relação à televisão. Com as imagens gravadas desses depoimentos, Wenders criou o “documentário” Quarto 666 (Chambre 666).

Acho justo colocar documentário entre aspas porque o filme não trabalha com afinco esse gênero. De certa forma ele frustra as expectativas de quem espera opiniões interessantes de grandes nomes do cinema, a ponto de criarem grandes debates. Mas o que se vê, mais do que pensamentos calorosos, são cineastas criando personagens perante à câmera, perdendo-se nas falas inconcluídas ou mesmo não tendo certeza e clareza do que estão dizendo.

Jean-Luc Godard fala poeticamente sobre a situação em que se encontra enquanto acende um charuto e passa longos minutos em silêncio; Antonioni caminha pelo quarto tentando conciliar seus pensamentos; Ana Carolina diz friamente o que acha em poucos minutos e logo se levanta para desligar a câmera; Herzog tira os sapatos e esclarece à maneira de um personagem, “não posso responder a uma pergunta dessas usando sapatos”; mas no final, fica a sensação de que se deveria ter menos interpretação e mais idéias consistentes, afinal, o debate proposto por Wenders era extremamente viável para a época, e ainda assim é contemporâneo para quem o assiste hoje.

Afora essas particularidades, discutir o cinema em confronto com a televisão parece uma daquelas discussões jurássicas em que sempre haverá um a assassinar a sétima arte quando uma nova tecnologia ganha espaço. Fato é que isso nunca ocorreu. Os cinemas ainda existem, filmes ainda são feitos, mas o que se muda são as necessidades. Agora, não mais cinemas nas esquinas, mas os reinantes nos shoppings. Ingressos mais caros, distribuição questionável, grandes investimentos para grandes produções que nem sempre entram na lista imaginária de melhores filmes do mundo… Sem contar as facilidades tecnológicas e o fácil acesso aos meios de produção. Tudo isso atendendo a uma realidade do século21. ATV não é mais do que um mero filho nascido desse pandemônio todo porque ela, agora, tem algo para se exibir: pode trazer o mesmo conforto do cinema para dentro de sua casa.

Além disso, há uma questão primordial de linguagem. A TV tem adquirido uma linguagem cinematográfica enquanto muitos filmes se parecem televisivos. Os personagens de seriados têm se tornado tão emblemáticos que parecem cobrir qualquer outro grande personagem surgido no cinema nos últimos anos. E tudo isso faz debates como esse voltarem à tona, trazendo soluções ou não. Mas pode ser que a televisão tenha a invenção mais genialmente criada, o botão de ligar/desligar ao alcance do controle remoto. Para os cinéfilos, é a oportunidade de ir ao cinema. Para os atuais, é a chance de ver e rever quaisquer filmes e seriados o tempo que quiser.

Pode ser que o cinema venha a se esvair, virar refúgio de saudosistas; pode ser que não. Todas as outras grandes artes não se perderam por aí, pelo contrário, continuam se reinventando nas maneiras de se manter em um mundo dominado exclusivamente pela tecnologia. Eu, particularmente, acredito que teremos um colapso tecnológico muito em breve e que a partir daí vamos ter de rever tudo o que é feito atualmente, mas isso já é outra história…

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Cinema

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s